o impossível: o retrato de uma tragédia não anunciada

Uma família espanhola, de férias em um lugar paradisíaco, vivencia uma das catástrofes mais impetuosas que a humanidade já experienciou. Se há quem diga que a realidade sempre supera a ficção dos filmes, então essa é a história que ninguém jamais desejaria vivenciar sequer na tela do cinema.

Ao final de 2012, uma nova produção cinematográfica espanhola era lançada nos cinemas do mundo todo: O Impossível. O Filme é baseado unicamente nas memórias de María Belón, personagem real que sobreviveu a uma das catástrofes mais impetuosas que a humanidade já experienciou, o Sismo do Índico em 2004.

A obra é baseada na história real de uma família espanhola que foi uma das milhares de vítimas da tragédia do tsunami que devastou a costa do Sudeste Asiático, no Natal de 2004. Se há quem diga que a realidade sempre supera a ficção dos filmes, então essa é a história que ninguém jamais desejaria vivenciar sequer na tela do cinema.

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As entrevistas de Maria, protagonista interpretada por Naomi Watts, que foram publicadas, narrando o acontecimento, foi a principal fonte para o roteiro do filme. Ela revelou que embora tivessem que apagar diversas cenas gravadas durante o acidente, ainda restaram algumas demasiadamente reais e trágicas que são capazes de impressionar qualquer telespectador.

O desastre não anunciado proporciona ao filme um caráter bastante reflexivo acerca de uma diversidade de temas centrados desde a necessidade da sobrevivência aos gestos mais despretensiosos de humanidade. Dentre estes, há um que é bastante focalizado na história: a força que podem ter as crianças diante de árduas situações e como podem transmiti-las aos adultos.

A FORÇA DOS FILHOS DIANTE ÀS TRÁGICAS CIRCUNSTÂNCIAS

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Uma família sai de férias no Natal para um lugar paradisíaco, um resort na Tailândia. Ninguém imaginaria o final trágico daquela viagem, até então recreativa e divertida: o devastador tsunami de 26 de dezembro de 2004, que em algumas horas deixou milhares de mortos naquela região. Observamos a forte relação estabelecida entre María, uma das vítimas, e seu filho mais velho, Lucas, quando uma das grandes ondas devasta o hotel e a família (marido interpretado, por Ewan McGregor, esposa e três filhos) é separada.

Maria, depois de ser engolida e ferida com o primeiro impacto da onda, vem à superfície, bastante ferida, assustada, e imagina que toda a sua família está morta. Prestes a abandonar o local, ouve o socorro de seu filho mais velho, Lucas, flutuando como ela e arrastado pela grande corrente oceânica que tomou conta do hotel e da costa completamente. Naquele momento, impulsionada a salvar seu filho, a mãe gravemente ferida retira força de onde não há para tentar socorrê-lo. Quando ocorre o reencontro e a sobrevivência à segunda investida do mar, o filme mostra uma das mais emocionantes cenas retratada do acidente. O momento ainda retrata o instante em que Lucas assiste a sua mãe gravemente ferida, com um peito e coxa extremamente debilitados. A criança fica impressionada e diz à mãe, chorando, que não consegue vê-la naquele estado. Nesse momento, sua mãe lhe dá pela primeira vez um retrato das adversidades que terá que suportar no caminho da vida, esta através das águas que os devastou e os feriu.

O filho acaba tornando-se um herói para a mãe bastante ferida, ele abre caminho, torna-se o chefe da família que fora diminuída. Segue sendo uma criança assustada, o impressionam as feridas de sua mãe, chora, porém quer ir primeiro e ajudá-la a movimentar-se, a subir em uma árvore para se proteger. Os papéis são trocados de uma certa forma. Nas cenas, Maria está em diversos momentos à beira da morte, mas tira forças para seguir em frente e para o seu filho não perder a coragem e disposição, orientando-o a tudo. Lucas logo aprende muitas lições de humanidade e solidariedade com a situação.

Em uma entrevista María Belón, protagonista da história, fala que, depois que se passaram poucos minutos após tsunami, ela se deu conta que seu filho tinha crescido tão de repente, tornou-se um homem com uma força incrível. Também deseja que o filme não seja visto como uma história de uma mãe, de uma família, e sim de milhares de famílias que, como eles, foram capazes de sobreviver, assim como, também, uma homenagem a todos aqueles que ajudaram as pessoas afetadas e uma solidariedade àqueles que morreram no desastre.

UMA HISTÓRIA DE SOLIDARIEDADE

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O filme nos mostra um outro momento bastante impactante que ocorre quando mãe e filho acabam colocando seus pés no chão após o tsunami e ouçam uma criança chorar e pedir ajuda. Lucas só pensa em salvá-los daquilo tudo, mas sua mãe o convence a ir ajudar o pequeno menino: “imagine que seja um de seus irmãos que precisa de ajuda”. Lucas insiste que a sua prioridade é salvá-los, mas sua mãe responde: “Ainda que seja última coisa que fazemos”. Cenas que transcendem a solidariedade ao próximo. Claramente uma mãe não poderia viver com essa carga na consciência em não ajudar uma criança.

Carga de consciência que tampouco suportaram os habitantes desta área da Tailândia, quando, em busca de seus parentes, que trabalhavam nos hotéis, não hesitam em ajudar os sobreviventes que estavam em seu caminho e levá-los para o hospital com os mínimos meios que dispunham.

Talvez essa história seja vista de modo diferente àqueles que não têm filhos ou pelo menos aqueles que não têm uma certa sensibilidade à família. O fato de saber que esta é uma história verdadeira impressiona qualquer telespectador e o impulsiona à empatia que sente-se de imediato com os pais quase vencidos pelo pensamento de perda de sua família e que mesmo assim revidem em sua busca.

O Impossível, além de mães, pais e crianças, aborda uma história de pessoas. Não é um filme-catástrofe trivial. Tampouco é a história de uma família. A história vai mais longe e versa sobre a sobrevivência e a morte de muitas pessoas, da força do ser humano, dos vínculos renovados e reforçados frente a uma situação extrema.

E acima de tudo, àqueles que são pais e têm sensibilidade à família, vocês vão entender e chorar um pouco com o filme. A história relata a memória de um descomunal tsunami, mas ao fim, ele traz realmente à tona a história de um outro tsunami, um tsunami emocional: como os pais podem ser incrivelmente fortes diante de uma desgraça e ainda ter que sobreviver pelos filhos, e como, nestes momentos, incrivelmente forte eles podem se tornar.

Disponível também em: http://obviousmag.org/literatura_cinema/2016/o-impossivel-o-retrato-de-uma-tragedia-nao-anunciada.html

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álvares, o poeta maldito

Em sua obsessão aos poetas fantásticos e sombrios e em suas leituras góticas incontestáveis, no delirar de Dante, Shelley e Byron foi que Álvarez de Azevedo tornou-se esse poeta tão expressivo, tão apaixonado, tão melancólico e que traz uma inquietude tão forte que impressiona a quem o lê.

Quem, algum dia, já leu Álvares de Azevedo certamente concordará com o enunciado acima. É inegável a genialidade desse poeta ultrarromântico que viveu apenas 22 anos, mas deixou inestimáveis escritos que ultrapassam gerações e o fazem um dos melhores de toda a literatura brasileira, cativando leitores com sua genialidade e sua originalidade.

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1850, momento em que o Brasil passa por grandes transformações sociais, políticas e culturais, a literatura desse período é desenvolvida por meio de romances, contos e poesias à moda rotineira, folhetinesca. As obras do Romantismo são marcadas por temas nacionalista, indianista e urbanista. O índio é exaltado como herói, a fauna e flora são mostradas como exuberantes, isto tudo com o intuito de buscar a identificação do país, pelo anseio de independência, principalmente da literária.

Foi no período em que o Romantismo atingiu seu ponto culminante que surgiu o jovem poeta Álvares de Azevedo, ele foi o responsável pela radicalização da literatura do século XIX, período que ficou conhecido como Mal-do-Século. Para isso, o poeta rompeu com toda rigidez formal e com o padrão da produção literária daquele momento.

Amante de Byron, Musset e Dante, Álvares, juntamente com Fagundes Varela e Casimiro de Abreu, introduziu uma literatura nunca visto em escritos brasileiros. Dramas pessoais, imaginações fantásticas, experiências boêmias entrelaçam-se e criam uma excêntrica produção da literatura do nosso país. Suas obras, principalmente Macário e Noite na Taverna, são consideradas pela crítica com fantástica, perversa, satânica, macabra e fúnebre, características estas que lhe deram o título de “poeta maldito”.

Em sua juventude, o poeta participava de diversas comunidades joviais boemias, o que favorecia sua participação em orgias famosas, tanto pela devassidão escandalosa, quanto por seus aspectos mórbidos e satânicos, o que sobressaíram em suas poesias e estórias. Diversos críticos literários apontam que Álvares de Azevedo, absorto do pensamento da morte, só se preocupava com o lado noturno, tais como as sombras, o crepúsculo, a noite, os túmulos. Suas obras situam-se entre o horror de Poe e Hoffmann e a perversão de Byron e Baudelaire. Da biografia de Álvares de Azevedo, destacam-se Noite na Taverna eMacário.

NOITE NA TAVERNA (1855)

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Noite na Taverna foi publicado pela primeira vez em 1855 em um dos volumes que compõe as Obras de Alvares de Azevedo. O livro é composto por uma série de contos fantásticos e trágicos repletos de vícios, devassidões e crimes. As personagens são cinco homens e seus relatos giram em torno do drama e da morte. Embriagados, estão reunidos em uma sombria taverna, narrando e discutindo seus derradeiros casos amorosos. Trata-se de uma obra fantasiosa e de pura imaginação, a linguagem é marcada por hipérboles e reticências. Noite na taverna se destaca, segundo os críticos, como o mais típico produto de influência byroniana no Brasil.

MACÁRIO (1852)

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Macário, talvez sua obra-prima, é um drama dividido em dois episódios o primeiro decorre “numa estalagem de estrada”, e o segundo “na Itália”. A peça, deixada incompleta pelo autor, é contada por meio de um diálogo entre um moço (Macário) e Satã, na qual é discutido temas ligados a poesia, mulheres, amor ideal. Muitos críticos consideram a obra como dramática, há que considere extravagante e sem sentido, ao passo que muitos consideram simplesmente genial.
Disponível também em: http://obviousmag.org/literatura_cinema/2016/alvares-o-poeta-maldito.html

os quatro (des)amores de federico garcía lorca

A desconhecida e pouca estudada vida amorosa de um dos principais escritores espanhóis, Federico García Lorca, esconde uma história parecida aos trágicos dramas que sobressaíram em muitas de suas obras.

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As relações homoafetivas do poeta surrealista espanhol Federico García Lorca compõem um obscuro romance e um mistério do qual somente algumas testemunhas e escassos documentos conhecem. O fato, entretanto, é que o poeta sentiu, pelos seus incontestáveis amores, uma verdadeira e devastadora paixão. Porém nem sempre essas escolhas foram as certas, com isso, em poucas ocasiões o poeta foi correspondido. Salvador Dalí, Emilio Aladrén, Rafael Rodríguez e Eduardo Rapún foram, em algum momento, os des(amores) de sua vida e de suas obras.

SALVADOR DALI: O INFACTÍVEL AMOR

Federico García Lorca e o pintor surrealista Salvador Dalí viveram um especial “Brokeback Mountain” na Espanha dos anos 20. O relacionamento deles foi além de uma simples amizade. Os artistas conheceram-se em 1922 na Residência de Estudantes, em Madri, quando tinham 24 e 18 anos, respectivamente. Foi uma grande história de amor, porém nunca, de fato, consumada. Lorca, menos temeroso ao amor, foi muito mais consciente do sentimento que sentia por seu amigo do que este pelo poeta. Contudo, o escritor ainda tinha dificuldades e resistência em aceitar sua homossexualidade, visto, entre outros fatores, a influência de um pai muito severo. O casal manteve, no entanto, uma estreitíssima relação pessoal e artística, primordialmente. Anos seguinte, tiveram diversas discussões estéticas complexas, até 1928, quando houve a separação entre os dois.

Depois de ingressar no serviço militar e após obter três meses de licença, Dalí reencontra-se com seu parceiro Federico e com ele passa todo este período entre Figueras, Cadaques e Barcelona. De acordo com o pintor, em maio de 1926, o poeta tentou ficar fisicamente com ele e, embora Dalí tivesse ficado lisonjeado, não cedeu aos seus desejos, já que não se considerava homossexual, o que Lorca sempre respeitou.

Tempos depois, o destino novamente os separou, Lorca mudou-se para Nova York e Dalí seguiu a vida na Espanha. No entanto, quando, em 1934, os dois amigos se encontraram novamente em Barcelona, nem o tempo e nem a distância tinham apagado esse relacionamento. “Somos dois espíritos afins. Aqui está a prova: sete anos sem ver um ao outro e nós concordamos em tudo, como se tivéssemos nos falado diariamente durante todo este período”, disse Salvador Dalí.

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EMILIO ALADRÉN: A GRANDE PAIXÃO

Em 1928, em Madrid, Federico se desentende com a revista “Gallo” a tal ponto que é substituído, pelo diretor da publicação vanguardista, pelo seu irmão Francisco García Lorca. Federico, ainda em seu interior, seguia apaixonado pelo jovem Dalí, apesar de estar em um íntimo relacionamento com o escultor Emilio Aladrén Perojo, que havia ingressado na Escola de Belas Artes em 1922, mesmo ano que Salvador. Oito anos mais jovens que Lorca, Aladrén, ele era um rapaz extremamente bonito, cabelos escuros, olhos grandes e ligeiramente oblíquos, o que lhe emprestavam um ar ligeiramente oriental.

Federico havia o conhecido em 1925, mas insinuou-se a ele apenas em 1927. Lorca seduziu-se pelo charme, pelo físico e pela pessoa do rapaz, assim como a pintora Maruja Mallo, que foi a namorada de Aladrén, até o momento em que Federico o “roubou” sem remorso.

A maioria dos amigos de Lorca desconsideravam Aladrén tanto como artista quanto pessoa, acreditavam que o jovem exercia uma influência bastante negativa sobre o poeta. Federico amava chegar como Emilio às festas e apresentá-lo como um dos mais promissores jovens escultores espanhóis.

Uma jovem inglesa chamada Eleanor Dove, chegava a Madrid como representante da empresa de cosméticos Elizabeth Arden, a moça foi a causa da ruptura da relação entre o poeta e escultor. É verão de 1928 e Lorca está mergulhado em uma profunda depressão que o levou a Nova York. Naquela época, ele escreveu uma carta a José Antonio Rubio, na qual ele diz, entre outras coisas: “agora eu percebo o que é esse de fogo de amor de que falam os poetas eróticos, e me dou conta, quando eu tenho necessariamente que cortar a minha vida para não sucumbi-lo”.

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RAFAEL RODRIGUEZ RAPÚN: A INTENSA ATRAÇÃO

Entre os jovens moradores da Residência Estudantil, em 1933, encontrava-se um considerável estudante de engenharia, Rafael Rodriguez Rapún. Nascido em Madri em 1912, Rafael tinha um estatura atlética, era bom jogador de futebol e socialista apaixonado. Não era homossexual, mas de acordo com o seu grande amigo Modesto Higueras, acabou se entregando aos encantos de Lorca: “Rafael gostava de mulheres mais do que qualquer outra coisa, mas ficou preso naquela rede, preso em Federico. Ao momento que estava imerso em Federico, estava inconsciente sobre aquilo. Então ele tentou escapar, mas não conseguiu…”. Apenas uma carta trocada entre Lorca e Rapún foi encontrada, escrito nos nostálgicos dias do poeta na Argentina: “lembro-me muito de você. Deixar de ver uma pessoa com quem se teve no passado, durante meses, todas as horas do dia, é insuficiente para esquecer. Especialmente quando se tem uma forte atração por esta pessoa”. Tempos seguidos, Lorca volta da Argentina e a relação de ambos é retomada. Quando o poeta é convidado à Itália para um congresso teatral, a esposa de Ezio Levi, quem lhe estendeu o convite, informou que ele poderia ir com sua esposa, Lorca respondeu que era solteiro, mas participaria com seu “secretário pessoal”, Rafael Rodriguez Rapún.

O poeta nunca deixou de amar aquele rapaz, quem, segundo com alguns testemunhos, como os da escritora e esposa de Alberti, Maria Teresa León, ficou profundamente entristecido ao ouvir a notícia do assassinato de Federico. Rapún recebeu treinamento militar, paradoxalmente, na localidade da morte de Lorca, e dizem que se caminhou para morrer na frente do Norte, onde se encontrava bastante magro, em 18 de agosto de 1937, há exatamente um ano depois da morte García Lorca. rafa.jpg

EDUARDO RODRIGUEZ VALDIVIESO: O “AMIGO” DE GRANADA

Foi o amigo de Granado de Federico, Rodriguez Valdivieso, que manteve as cartas do poeta até 1997 quando morreu. Ele era quatorze anos mais jovem que Lorca, era alto e bonito, com olhos escuros e uma sensibilidade à flor da pele. Ele trabalhava relutantemente em um banco da cidade de Granada, amava literatura, era pobre e infeliz. De acordo com Ian Gibson, assim que conheceu se apaixonou por Lorca, foi seu melhor amigo durante aproximadamente um ano, e o relacionamento uma das experiências fundamentais de sua vida.

Eles se conheceram em fevereiro 1932, em um baile à fantasia, no Hotel Alhambra Palace. Ele estava vestido como Pierrot e o poeta, de Dominó. Rodriguez Valdivieso recordou que a festa durou até o amanhecer: “beberam tanto que no dia seguinte, poucos se lembravam da passada aventura”.

O relacionamento é o conteúdo de uma das sete cartas que Lorca enviou ao amigo: “recebi sua carta, eu respondi de imediato, muito feliz que você lembrou-se de mim, porque eu pensei que você havia me esquecido. Eu, como sempre, lembro-me de você, quero ter notícias um laço de união com você”.

Em 18 de julho de 1936 Rodríguez Valdivieso visitou o Huerta de San Vicente para celebrar junto com seu amigo a festa de San Federico. Uma daquelas tardes terríveis de guerra e repressão, Federico desceu do seu quarto e disse que ela tivera um sonho perturbador: um grupo de mulheres que estavam em luto, possuía um crucifixo negro, com os quais ameaçavam veemente o poeta. edu.jpg

 

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quatro luas: um filme sobre descobertas, desejos e, principalmente, amores

Um drama megamente apaixonante, mostrado por meio de quatro histórias inquietantes referenciando, cada qual, uma fase da lua e que se desenrolam, conjuntamente, incitando o espectador à reflexão sobre comportamentos humanos intensos.

A lua, há bastante tempo, é reputada como a essência de nossa estrutura emocional, determinante de nossas necessidades básicas, de nossas manifestações inconscientes e caracterizadora em nossas expressões de humor e comportamento. Talvez seja esse pensamento a ter levado Sergio Tovar Velarde, escritor e diretor mexicano, a produzir um dos belíssimos filmes sobre descobertas, desejos e, principalmente, amores: Cuatro Lunas (Quatro Luas, 2015).

Um garoto vê-se apaixonado pelo primo mais velho e dele se aproxima a fim de respostas às suas inquietudes e hesitações. Dois velhos amigos de infância encontram-se eventualmente na universidade e a partir daí envolvem-se em um relacionamento discreto, marcado pelo receio das atitudes familiares e sociais. Um casal, casado há dez anos, entra em conflito quando um outro homem entra no jogo e um deles tenta, a todo custo, salvar a longa relação já desgastada. Um poeta aposentado, ao conhecer, numa sauna, um garoto de programa, sente-se obcecado por este, levando a se sacrificar, a fim de preencher suas fantasias e seu vazio sexual. Histórias inquietantes que se desenrolam, conjuntamente, e incitam o espectador à reflexão sobre comportamentos humanos em se tratando de relações emocionais e afetivas.

LUA NOVA

Nesta fase da lua, nos é apresentado a história de Maurício (Gabriel Santoyo), um garoto bem-educado, filho único que cursa os primeiros anos do colegial, vive com seus pais numa família aparentemente tranquila. Ao decorrer das situações ocorridas no filme, percebe-se seu interesse pelo primo mais velho, Oliver (Sebastián Rivera). Ambos estudam no mesmo colégio, e este é sempre atraído por Maurício por meio dos jogos de videogames, os quais habitualmente costumam jogar.

A história do garoto é conduzida ao espectador de uma maneira bastante sensível. Apaixonam-se todos pela inocência da criança em lidar com a situação de sua sexualidade, bem como a descoberta e a confusão emocional que envolve esta etapa da vida. Observam-se os desafios que, a partir de então, atravessam-se por motivo de sua preferência, tendo um pai machista e uma mãe totalmente submissa ao marido, o que lhe proporciona um ambiente familiar não tão favorável, além do medo e do receio em relação à religião que lhe afirma isto ser um pecado bastante grave.

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LUA CRESCENTE

Em lua crescente, conhecemos, para muitos, o casal mais simpático da obra: Fito (César Ramos) e Leo (Gustavo Egelhaaf), dois jovens universitários que, após longos anos, o destino lhes concede novamente o encontro. Após isto, ambos são levados a fortes desejos sexuais e sentimentais. Com isso, os jovens iniciam um breve relacionamento, escondido da família e dos amigos, porém, o medo e as tentativas de esconder o relacionamento, por parte de Leo, acabam por finalizá-lo.

Neste caso, o filme transmite a difícil fase da autoaceitação, vivida pelo personagem Leo, que se acha num novo momento da vida e não deseja transparecer à família por medo de repressão. A família e um ponto discutível nessa fase, pois, se num caso observamos uma mãe carinhosa que aceita e apoia os sentimento e decisões do filho, por outro vemos o indício da família tradicional, ocasionando o medo e o receio da aceitação por parte do personagem Leo.

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LUA CHEIA

Em lua cheia, vêm à tona os dramas da relação de Andrés (Alejandro de la Madid) e Hugo (Antonio Velázquez), um casal casado há dez anos e que, a partir de então, se vê ameaçado pela presença de um outro homem. As difíceis relações, de qualquer casal, em uma união desgastada na qual não há mais interesse por parte de um destes. Também as tentativas idiotas de tentar salvar o casamento que já não há mais o que progredir.

A aceitação das pessoas tal como são, o encadeamento de um relacionamento aberto e a fidelidade são itens difíceis de levar quando não há mais interesse de uma parte em um relacionamento, o que observamos na vida do casal Andrés e Hugo. O que nos chama atenção, é a insistência da outra parte em salvar e dar continuidade ao matrimônio, sendo as tentativas todas fracassadas. Após toda a humilhação, Andrés finalmente despertar-se para o fato, deixando o parceiro, desta vez, sozinho, a refletir.

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LUA MINGUANTE

Na última fase apresentada, conhecemos um poeta idoso, pai, avô. Com uma família aparentemente tranquila, o velho poeta frequenta continuamente uma sauna masculina, na primeira cena, ele conhece um novato garoto de programa, Gilberto (Alejandro Belmonte), pelo qual se torna totalmente atraído e obcecado. Inicialmente, o rapaz o repudia, impossibilitando até de pagá-lo para ter seus prazeres saciados.

Mais uma vez, a traição e a vida sustentada na mentira sobressaem nas cenas deste caso. Com enfoque também nas sobrevivências da sociedade. Um michê, pai de família, que se sujeita a tal vida a fim de voltar a seu país. Um idoso, com uma vida eruditamente prestigiada, que talvez tenha ocultado durante toda a vida sua sexualidade. Ambos têm os destinos cruzados, e apenas depois de um programa, as verdadeiras histórias escondidas nos personagem aparecem, compreendendo, ambos, os dramas de cada um.

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UM FILME MEGAMENTE APAIXONANTE

Cuatro Lunas é uma história cativante e comovente mostrada através dessas quatro histórias intercaladas. Mostra o processo individual de aceitação de quatro personagens homossexuais em um determinado momento de sua vida, utilizando as fases básicas da lua como representação. Não é simplesmente um resumo costurado de diversos personagens, e sim, reflexivas e inquietantes histórias reais que podem ser comparadas com diversas pessoas, independente de suas orientações, pois, antes de tudo, este é um filme sobre pessoas.

A sensação da tranquilidade que se tem no final do filme em que tudo acaba bem é um dos pontos mais confortáveis que raramente outros trazem. Um filme megamente apaixonante, indispensável àqueles que apreciam histórias repletas de reflexões e comportamentos humanos intensos.

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florbela: a expressividade poética de um caso humano

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada que seja a minha noite uma alvorada, que me saiba perder…pra me encontrar…

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Ela estava exausta, insatisfeita, doente, sem “gestos novos, nem palavras novas”. Trancada em seu quarto, na madrugada de 7 para 8 dezembro, dia em que completava seus trinta e seis anos, Florbela talvez esperava, como regalo, unicamente, consolo à sua atordoada passagem ao mundo que a vida lhe encarregara. Ela mesma se brindou com tal. Dois fracos do sonorífero Veronal, encontrados abaixo de sua cama, foram-lhe predestinadamente fulminante. Nada pode ser feito. A morte lhe foi um oásis.

No dia seguinte, toda a imprensa portuguesa anunciava a morte da poetisa. A partir, e apenas então, manifestou-se o interesse às publicações, críticas e estudos acerca de sua vasta obra, escrita até então. Lembrando Kafka, Van Gogh e Rimbaud, a factual expressão “só se dá valor depois que se perde”, encaixa-se, perfeitamente, também no caso Florbela Espanca. Hoje, inúmeras são as investigações e análise em volta da vida e obra desta singular poetisa que viveu ousadamente um período que não lhe era favorável. Foi a expressividade poética de um caso humano.

A PEQUENA FLOR BELA

O nascimento de Florbela aconteceu em dezembro de 1894, numa pequena vila da cidade de Évora, região do Alentejo de Portugal. O fato ocorreu depois que Antónia da Conceição Lobo, mãe da poetisa, foi a escolhida do republicano João Maria a lhe conceder filhos, visto que sua legítima mulher não era apta. Florbela foi batizada apenas com o nome da mãe, apesar de ser criada junto ao seu pai. O mesmo ocorreu com seu irmão, Apeles, dois anos mais novo.

Aos cinco anos, Florbela ingressa na escola primária. Precocemente, aos oito anos de idade, escreve seu primeiro poema: A vida e a morte, já despontando traços que atravessarão e seguirão toda sua produção poética. E Florbela sempre almejava por mais, sendo assim umas das únicas a terminar a escola secundária, aos dezessete anos, no Liceu de Évora, levando sua família a mudar-se para a cidade para viabilizar sua permanência. O casamento aconteceu quando completara dezoito anos. Alberto de Jesus Moutinho, seu colega desde a escola primário, foi quem a recebeu como esposa.

O matrimonial iniciou-se na cidade vizinha de Redondo. Após alguns meses, e acometido de uma grave crise financeira, o casal regressa à casa dos pais, por quem são sustentados por um determinado período, nesta época os dois lecionam aulas de português a fim de ajudar nos importes.

Sempre irreverente e ousada e após ter produzido diversos poemas, Florbela seleciona uma quantia de 85 e reuni-os em uma coletânea. O resultado foi seu primeiro livro Trocando Olhares, lançado em 1915, com uma pequena tiragem de duzentos exemplares, alavancado tão somente à sua própria custa. Com indícios das cantigas medievais de amigo e amor, com forte tendência ao panteísmo e a força telúrica, os versos florbelianos inovaram no que se refere aos elementos composicionais da poesia, trazendo, dessa forma, uma excessiva propensão ao lirismo amoroso.

SUA VIDA FORA DE REGRAS

Aos 22 anos de idade, Florbela é uma das 14 mulheres a ingressarem na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, um número relativamente baixo ao que se refere o de homens, 333. Vivendo em Lisboa, a poetisa passa a conhecer o estilo artístico da capital do país. Momentos esses em que ocorria na capital portuguesa o Modernismo, a geração Orpheu, e, embora Florbela conhecesse um dos integrantes, em nenhum momento ela tivera conhecimento do movimento que alvoroçava a literatura da época. A tendenciosidade deixou de lado a presença de uma das figuras com poesias tão recorrentes, tais quais as de Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa e seque ela foi apresentada ao meio.

Após levar uma vida ócia, desregrada, fora dos padrões e numa alegre boêmia, manifestam-se os primeiros sintomas da doença herdada da mãe e que lhe acompanhará até sua morte. O fato a obrigou a abandonar o curso e a vida boemia em Lisboa, e então partir para Quelfes. Na cidade, Florbela continua a produzir, ao mesmo tempo em que se torna explicadora particular de português.

Data-se de 1921, o decreto do fim de seu casamento de sete anos. Petulante e ousada, dois meses depois, Florbela casa-se novamente em Porto com o alfares de artilharia António Guimarães, com que vinha a divorciar-se, novamente, em abril de 1924. O fato fez com que sua família lhe voltasse as costas. Num Portugal conservadorista, o divórcio não era tão recorrente e tampouco bem visto.

Lançado seu segundo livro, o Livro de Sóror Saudade traz a temática da fuga da realidade e inconsistência no amor, o teor fúnebre é sempre associado ao amor e à vida. Suas escritas partem, por tantas vezes, de suas próprias experiências e vivências que a vida lhe acarretara. Neste período, Florbela divorcia-se de seu segundo marido, nove meses depois, casa-se novamente, desta vez com o médico Mário Lage.

SEU DIÁRIO DO ÚLTIMO ANO

O ano é 1927, Florbela encontra-se ainda produzindo, traduzindo romances franceses e passa a colaborar com algumas revistas femininas e periódicos, os quais estampam algumas de suas belas poesias. Após ter finalizado seu livro de contos, O Dominó Preto, que será lançado, apenas depois de sua morte, Florbela tem conhecimento da mais dura e difícil perda de sua vida. O hidroavião Hanriot 33, em que Apeles, seu irmão, pilotava, cai drasticamente sob o rio Tejo.

À memoria do irmão, a poetisa dedica uma gama de poemas e o livro As máscaras do destino. Neste período, a poetisa acha-se novamente adoentada. Encontra-se perduravelmente depressiva e infeliz, neurótica, abusando do cigarro e definhando-se perceptivelmente.

A vida lhe findava em 1930, período de alvoroço em Lisboa, para onde Florbela desloca-se algumas vezes. Neste período, ela produz aquele que seria seu último manuscrito: Diário do último ano, nele observa-se o estado de solidão em que a escritora estava mergulhada. Seu Diário se encerra em 2 de dezembro, a última frase “e não havendo gestos novos nem palavras novas!” traduz exatamente o que estava por vir. Após o suicídio, a poetisa foi enterrada em Matosinho e, 34 anos depois, seus restos mortais foram transportados para sua cidade Natal, Vila Viçosa.

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um pouco sobre linguística textual

Podemos afirmar que a Linguística textual (ou Linguística do texto – LT) teve um duro percurso teórico desde a manifestação da necessidade de estudos do texto até sua consolidação como uma das áreas da linguística.

Bem antes de sua solidificação, houve uma grande necessidade de se estudar o texto, com análises que iriam além das frases, pois até então existia apenas a Sintaxe, que se preocupava com análises frasais, e a Semântica, com o sentido. Diversos teóricos, como Kock, Halliday, Methesis, Dijk e Fávero, trabalharam a questões acerca dos textos ao decorrer do século passado, essas teorias, de certa forma, impulsionaram para a criação de uma área, dentro da linguística, que pudesse analisar o texto de forma geral.

Foram necessários trinta anos de lutas para o termo “Linguística textual” fosse empregado pela primeira vez por Harald Weinrich, postulando e constituindo-se assim no ramo que estudaria o texto em si. Esse campo trabalhava se acordo com o Gerativismo e não levava em consideração o Estruturalismo. Tinha como sua base de estudo além do texto, o sujeito e o contexto situacional.

Teóricos desta área afirmam que o desenvolvimento da Linguística textual se deu de maneira diferente em cada país, ou seja, não houve um contato para convergências entres essas análises, com isso, afirma-se que, em seu primórdio, a LT passou por três fases, que ocorreram consecutivamente. Sendo estas, análise transfrástica, gramática textual e teoria do texto.

A primeira análise se voltava aos fenômenos que não eram explicados pela Sintaxe e pela Semântica, ou seja, eram análises que iriam além das frases. A segunda postulava a construção da gramática textual, ou seja, uma competência textual do falante, entendia que nas relações textuais, cada falante é capaz de construir um sentido global e apropriado para a construção de real sentido do texto. Quanto ao último, diz respeito aos estudos dentro do contexto de produção a ser compreendido não como um produto acabado, mas como um processo, resultando de operações comunicativas.

A coerência e a coesão são os dois principais pontos da Linguística Textual

A coerência e a coesão são os dois principais pontos da Linguística Textual

o surgimento das línguas do mundo

A temática em torno da origem da linguagem e das línguas vem, por muito tempo, persistindo em diversos estudos, tanto no âmbito linguístico, quanto cultural, antropológico e até biológico. As discussões desta questão são fundamentais, visto a extrema importância e o lugar que a linguagem tem na atualidade.

A abordagem desta problemática, feita por Sylvain Auroux (2009), presente no texto “A questão da origem das línguas”, é constituída por meio dos mitos, que segundo ela, explica em várias faces a origem da linguagem.

É impossível pensarmos em origem das línguas e não nos reportamos ao texto bíblico que aborda o acontecimento da torre de Babel, em que, Deus, para confundir os homens na comunicação, deu-lhes várias línguas diferentes, surgindo a confusão que impediria a construção da torre que chegaria ao céu. Auroux chama atenção de que este fato ocorreu antes do Dilúvio, ou seja, depois deste episódio não haveria aquelas várias línguas existentes desde o episódio da torre de Babel, ou seja, o mundo era habitado novamente por pessoas com uma única língua, a da família de Noé, sobreviventes do dilúvio. O autor explica que “uma dispersão dos filhos de Noé” acarretando uma “genealogia dos povos” e com isso “a genealogia das línguas deles” é o acontecimento bíblico que explica a origem das línguas que originaram idiomas que hoje o mundo usa (2009, p. 26).

Ilustração da Torre de Babel, episódio bíblico apontado por muitos estudiosos como a origem das diversas línguas existentes na sociedade

Ilustração da Torre de Babel, episódio bíblico apontado por muitos estudiosos como a origem das diversas línguas existentes na sociedade

O Iluminismo foi uma época em se deu grandes saltos para a pesquisa da origem da língua. Neste período histórico, devemos nos ater, como lembra Auroux, que os filósofos desta época não viam a origem da língua como questão histórica. Nesta questão, há um grande atrito entre os filósofos de outros séculos. Enquanto Condillac defende que a origem da língua decorre de um princípio utilitarista, ou seja, “fundado sobre o indivíduo”, Rousseau defende o princípio altruísta, ou seja, a linguagem adquirida pelo homo sapiens se deu numa questão apenas de evolução. Com isso, o autor conclui que toda essa discussão parte do campo da ficção, sendo esta “não um arremedo de uma história impossível”, mas a possibilidade de acontecimento, se acreditamos (2009, p. 27-8).

O ponto importante que devemos levar em consideração, no que diz respeito a essa origem, é a compreensão de que a história linguística não é importante para a explicação, e sim as necessidades que fazem com que o homem adquira a linguagem e a natureza desta.

A partir desta observação, Auroux parte para a questão da linguagem humana e animal fazendo uma comparação entre ambas, mostrando as evoluções dos estudos da linguagem. O autor faz uma comparação bem clara de que se o homem é animal que possui logos, logo os demais animais não os possuem. Verificamos uma diferença radical entre estes seres quando se refere à linguagem. De fato, o homem é o único ser que tem a capacidade e o dom da fala, porém à linguagem, os demais animais possuem assim como o homem. Casos de semelhantes linguagens humanas em animais foram bastante estudadas e discutidas, é o caso de diversas espécies de pássaros, porém verificamos que são apenas repetições dos humanos, que “eles não sabem nada além dessas frases ilimitadas e as repetem a propósito e fora de propósito” (2009, p. 32).

Esta mesma situação não acontece com o humano que a usa em diversos momentos e de diversas formas em comunicações. Sobre isto, Benveniste analisou uma pesquisa feita pelo biólogo Frisch, em 1924, sobre uma suposta comunicação entre as abelhas, para o linguista, as abelhas têm um “o vocabulário básico e é sempre o mesmo; ele não permite nem a metalinguagem, nem a intervenção do falante, nem o diálogo” (2005, p. 18). Com essa discussão, concluímos que, realmente não há como comparamos semelhanças entre a linguagem humana e a animal, porém não podemos deixar de levar em conta que os animais têm suas devidas linguagens, porém não iguala a do homem, sendo este o único com a possibilidade da fala e da língua.

REFEÊNCIAS

AUROUX, Sylvain, Filosofia da Linguagem. Trad. Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola, 2009.

BENVENISTE, Emine. Problemas de Linguística Geral II. Trad. Maria Novak e Maria Neri. 5 ed. Campinas: Pontes, 2005.

introdução à sociolinguística

Se o ramo das Ciências Humanas que se dedica aos estudos da linguagem, a Linguística, ainda é pouco conhecida, a subárea desta ciência que se dedica a analisar as relações entre linguagem e sociedade, a Sociolinguística, é quase que desconhecida na sociedade.

É de inquestionável compreensão que linguagem e sociedade são campos que se relacionam constantemente e que nessas relações ocorrem fenômenos que merecem atenção. Diversos teóricos linguistas, desde o século XIX, vinham observando essa necessidade de se estudar a língua em seus diversos fatores com a sociedade. As intensificações de análises deste gênero culminaram, em 1964, nos Estados Unidos, o surgimento da Sociolinguística.

A Sociolinguística é uma área, dentro da Linguística que se ocupa a estudar os fenômenos linguísticos observados numa perspectiva sociológica. O objeto de estudo desta área são as variações e as diversidades linguísticas presentes em uma determinada comunidade. É papel do sociolinguista, analisar, descrever e estudar a língua falada, levando em consideração o contexto social e a situações de uso desta.

Ao trabalhar a linguagem nesse segmento, o sociolinguista leva em considerações diversos fatores que determinam a diversidade linguística, sendo elas: a) a individualidade do falante, ou seja, sua fala pode variar se tratar-se de uma mulher ou homem, de um adolescente ou um idoso; b) a individualidade do receptor/ouvinte, isto é, verifica-se diferentes modos de falar com um bebê ou um adulto, com um amigo ou professor, por exemplo; c) o contexto social, assim, analisa-se diferença quanto à fala em uma reunião ou em casa, em um discurso ou em conversa com amigos; d) o espaço geográfico, ou seja, a variações observadas, por exemplo entre um nordestino e um gaúcho; e) o trajeto histórico, ou seja, observa-se o desuso de certas palavras e o aparecimento de novas de acordo com a necessidade social; e, por último, d) o julgamento da sociedade à diversidade linguística.

socio

As variantes da língua são um dos objetos de estudos da Sociolinguística

Todos esses fatores merecem atenção da Sociolinguística, assim, conhecemos as modalidades de variações linguísticas, a saber, a social ou diastrática, a geográfica ou diatópica, a temporal ou diacrônica e a estilística. Importante ressaltar, a questão do preconceito linguístico, bastante divulgado na Sociolinguística.

Aos diferentes modos de falar constatados numa sociedade, levando em consideração o tempo, o lugar, o ouvinte e o falante, a Sociolinguística designa o nome de variação linguística, esse conjunto de variações é conhecido como repertório linguístico, isso quer dizer que a língua é homogênea e flexível a diversas situações e cabe a cada falante usar ou não cada variação de acordo com o momento e o contexto. No entanto, há pessoas que carecem de um repertório linguístico diversificado, com isto, utilizam-se da mesma variação ao uso nas diversas situações sociais. A intolerância, a discriminação, a ironia e o deboche em relação a isso se constituem no que conhecemos como .

É papel do professor, constituir um repertório linguístico a esses falantes, sem deixar de levar em consideração suas variações, e conscientizar a usá-los de acordo com as situações exigidas.

#PorMaisRespeitoAsDiversidadesLinguisticas!

bizarras figuras das histórias góticas

Muito se fala atualmente em gótico, este gênero, encontrado na música, na arquitetura e demais artes, vem se consolidando cada vez mais na literatura e aumentando drasticamente seus adeptos. Como de praxe, o gótico na literatura utiliza-se do físico para causar horror e provocar sentimentos intensos de medo e pavor, repulsa e asco.

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Tratando-se de causar medo e repugnância, muitos autores de obras gótica, ou fantástica, utilizam-se de figuras horripilantes, medonhas e grotescas, aberrações, monstros sanguíneos e de aparências extremamente assustadoras. Um grande representante desta figura é o monstro abordado no famoso livro Frankenstein, da escritora inglesa Mary Shelley.

No livro, a figura é descrita sendo feita de pedaços de cadáveres humanos pelo médico Victor Frankenstein, seu criador. O nome da criatura não é citado, muitas vezes é chamado de Monstro, Demônio, Criatura, Aberração, etc. Como podemos verificar no livro, ao contrário dos filmes baseados na obra, a criatura era de cor amarela, possuía membros desproporcionais, sendo alguns maiores que os outros, além de ser considerado inteligente, racional e sensível. No capítulo 5 do livro a autora o descreve: “(…) sua pela amarela mal cobria o relevo dos músculos e das artérias que jaziam por baixo, seus pelos eram corridos e de branco lustoso; seus dentes alvos como pérolas. Todas essas exuberâncias, porém não formavam senão um contrastehorrível com seus olhos desmaiados, quase da mesma cor acinzentada das órbitas onde se cravavam, e com a pele encarquilhada e os lábios negros e retos”.

Outro monstro, sem sombra de dúvidas, horripilante, é o famoso Drácula. A famosa criatura sinistra, movida pela vontade, possuía apenas um objetivo: matar sua sede com sangue humano. A história ficou conhecida pela escritura de Bran Stoker (1847-1912), contemporâneo de Mary Shelley, que dedicou sua vida à ficção de horror. Na verdade, a história é uma adaptação do fato que ocorreu no século XV. Um nobre, conhecido como Vlad Tepes ou “O Empalador”, adotou o nome “Dracul”, que em romeno significa Satanás, este viveu na região de Transilvânia e matava suas vítimas com a arte da empalação, Vlad ficou famoso por ter empalado mais de 30 pessoas. Foi a partir destes episódios que surgiu a história de Drácula.

Segundo a história de Stoker, Drácula tem vários poderes de origem vampírica, possui uma força natural sobre-humana, tem a habilidade de se transforma em lobo, morcego, além de obter poderes sobrenaturais como hipnose, o poder da cura, a imortalidade, etc.

Drácula e o monstro de Frankenstein são apenas dois exemplos das bizarras figuras que assombram as histórias góticas, pois o uso do horror e das criaturas sinistras são um dos principais recursos usado para causar o espanto e o pavor, características do gótico, que vem transformando, radicalmente, meros leitores em fantásticos adeptos do gênero.

Disponível também em: https://www.portaleducacao.com.br/cotidiano/artigos/58782/bizarras-figuras-das-historias-goticas

#PorMaisMonstrosGóticos…!

bem-vindos à literatura, artes & cinema: diálogos contíguos

A construção deste espaço deu-se, primeiramente, em 2015, com o intento de compartilhar com o mundo minhas percepções, análises e meditações acerca dos imensos mundos da Literatura e da Linguística. Agora, 2016, acrescento Artes e Cinema, mais duas outras paixões. Pretende-se, sempre, aqui a publicações de pensamentos e assimilações que surgirão ao longo de meus estudos acadêmicos, de minha vivência e de minhas pesquisas científicas do mestrado e grupos de pesquisa. Espera-se a familiarização de todos com colaborações participações a este ambiente.

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